TERNO

Short-Stories in Portuguese|Contos em Português

 

Passo meus dias sentado. Escrevendo. Digitando. E mais importante: observando. Vejo se um desenho está certo, vejo se um relatório é bem escrito, vejo se há alguma frente em perigo. Meu trabalho é estar atento. Quieto, mas turbulento; pequeno, mas grandioso.

Por isso, olho. E por olhar, vejo. O franzir da testa, o ranger dos dentes, o apertar dos lábios. Vejo mãos que se cumprimentam, mas que escondem a outra; vejo sorrisos que alegram, mas olhares que queimam; vejo abraços vazios e risadas gravadas. Mas acima de tudo: vejo os ternos brilhantes, as gravatas esculturadas e os sapados engraxados.

Estão todos em tons sombrios: azuis, marrons e pretos — como uma cúpula de vidro, que revela o que há por dentro; novos só em aparência: seu tecido é velho e a costura antiga. Por isso quando vejo um desses horrendos, ásperos e cediços vestimentos sinto nojo e acantoamento.

De meu cubículo posso ver uma sala de paredes de vidro e mesa redonda. Onde vários Ternos se sentam virados uns aos outros. Poucos são cinza, de gravata vermelha, dourada e brilhante — uma joia de lapela que inspira fascínio, a primeira das vistas no encontro a outro, seja terno ou vestido, seja camiseta ou camisa, seja terno ou Terno—; a maioria é preto.